Zamarion

De: Paulo Helene .PhD Engenharia
Data: domingo, 25 de novembro de 2012 08:39
Assunto: Re: [calculistas] Comunicado de Falecimento Prof. Dr. José Zamarion Ferreira Diniz

Estimados Eduardo Millen y Guilherme Covas

O querido Zamarion foi muito importante para minha atual visão da engenharia e do papel do engenheiro.
Apesar que não gostava de ser chamado de Professor Zamarion ou de Dr. Zamarion, deixou muitos discípulos e ensinou muitos outros, entre eles, orgulhosamente eu, a ver na humildade e no diálogo, apoiado em muito conhecimento um caminho seguro de crescimento profissional.
Na verdade foi Professor por muitos anos e Dr. por renomado saber, mas sempre pediu para ser chamado de Zamarion, o colega, o amigo, o mestre, o engenheiro e pessoa solidária e desprendida no manuseio de seu saber e de seu tempo.
Na Presidência do IBRACON, entre tantas vitórias e acertos destaco que ele teve a visão, na década de 90, de criar e impulsionar uma Diretoria de Pesquisa e Desenvolvimento com objetivos nobres que muitos até hoje, como eu, compartilhamos que seria fazer do IBRACON uma espécie de banco de projetos de pesquisa sobre concreto para evitar duplicidade exagerada de pesquisas de um mesmo tema (inventar a roda) e ao mesmo tempo identificar lacunas de conhecimento para sugerir novas pesquisas.
O Brasil tem no CNPq registrado mais de 120 grupos de pesquisa em concreto e certamente essa iniciativa dele, e até hoje recentemente revitalizada pelo Prof. Tulio Bittencourt, presidente atual do IBRACON, poderá projetar ainda mais o Brasil no cenário mundial do concreto, focando pesquisas e economizando verbas e recursos.
Apesar de profissional bem sucedido, empresário de sucesso com escritório reconhecido e abarrotado de trabalho, sempre doou suas horas técnicas e farto conhecimento ao interesse de todos e do país.
Além de seu voluntarismo na Presidência e inumeras outras atividades na Diretoria do IBRACON por décadas, foi um dos grandes baluartes da revisão da NB‐1 de 1978, trabalhando sistemática e arduamente desde 1993 a 2003.
Por 10anos junto com Fernando Stucchi, Laranjeiras e Ricardo França, liderou a Comissão de estudos e abriu e colocou seu escritório, aos sábados, todos os sábados, e toda a infra do escritório a serviço das reuniões e dos colegas que ali se reuniram inúmeras vezes para voluntariamente “construir” uma moderna, coerente e útil norma brasileira.
Quantas lições ali aprendi com ele, a ser mais flexível a entender que o ótimo engavetado é inimigo número um do bom aplicado e utilizado, que se deve ouvir todos os pontos de vista…, sem falar no deleite de curtir seus sólidos conhecimentos técnicos.
Não contente com essa vitória, continuo lutando até conseguir que essa norma fosse reconhecida mundialmente como norma de primeira linha no projeto de estruturas de concreto ao lado e em pé de igualdade com as melhores do mundo (ACI e EUROCODE).
Estou emocionado e poderia continuar aqui discorrendo sobre sua capacidade ímpar de liderar colegas: quantas vezes estive na sede do IBRACON no IPT, aquela famosa “casinha de madeira”, para revisar voluntariamente trabalhos (artigos) científicos submetidos pelos pesquisadores do Brasil inteiro e até alguns estrangeiros, classificá‐los, escolher os premiados e lá encontrava numa salinha desconfortável de pouca luz, pouca ventilação, sem ar condicionado, a elite da engenharia de concreto do país.
Sim senhores ali estavam: Vasconcelos, Cláudio Sbrighi, Selmo Kuperman, Simão Priszkulnik, Ronaldo Tartuce, Amaral, e outros abnegados voluntários que acreditam na importância de uma Entidade forte, ética, plural, democrática e reconhecida para o engrandecimento do País na área de engenharia de concreto.
Estou recordando pasagens com ele e me emociono.
Lamento não poder acompanhar seu velório e enterro pois estou em Recife mas o acompanho de coração com o respeito, a admiração e a gratidão pelo muito que fez pela engenharia de concreto no Brasil, por mim pessoalmente e por outros tantos estudantes, pesquisadores e profissionais que, talvez porque assim é a vida atual, nem sabem quem foi o grande Zamarion!
Caro Mestre, agora descansa em paz em outra dimensão mas vai continuar vivo e presente em nossas vida e memória
para sempre.
Obrigado

Paulo Helene

 

Em 24 de novembro de 2012 19:49, Antonio C R Laranjeiras <antolara@terra.com.br> escreveu:
Colegas,
Como bem diz o colega Carnaúba, a Engenharia está de luto com a lamentável perda do eminente colega Prof. José Zamarion Ferreira Diniz, pela sua extensa e valiosa contribuição.
Em sua memória e homenagem, transcrevo abaixo biografia e entrevista com o Prof. Zamarion, publicadas na revista Téchne 102, setembro de 2005.

Antonio C R Laranjeiras
Salvador, BA
24/11/2012
José Zamarion Ferreira Diniz

Mais de meio século de conhecimento em estruturas pré‐moldadas e concreto protendido
Perfil

 

fotoNome: José Zamarion Ferreira Diniz
Idade: 73 anos
Graduação: engenheiro civil pela UFMG Universidade Federal de Minas Gerais), em 1956
Pós‐graduação: em engenharia estrutural com ênfase em pré‐moldados e concreto protendido na Universidade da Flórida (Gainesville), entre 1957 e 1958
Empresas em que trabalhou: em Belo Horizonte, Setec (Serviços Técnicos de Engenharia Civil) e Comag (Companhia Mineira de Águas e Esgotos). Em São Paulo, SCAC (Sociedade de Concreto Armado Centrifugado), Cinasa (Construção Industrializada Nacional S/A) e Zamarion Consultores
Cargos que exerceu: presidente do Ibracon (Instituto
Brasileiro do Concreto) de 1993 a 1995 e de 1995 a 1997,                                                                                         professor‐assistente da UFMG de 1959 a 1968

O amplo conhecimento que o engenheiro José Zamarion Ferreira Diniz tem a respeito de pré‐moldados de concreto e concreto protendido levou pouco mais de meio século para ser construído. Formado em 1956 pela Escola de Engenharia da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais) e pós‐graduado entre 1957 e 1958 na Flórida, nos Estados Unidos, Zamarion participou ativamente do desenvolvimento do mercado brasileiro de elementos industrializados de concreto.
A atração pelo nicho de elementos estruturais industrializados de concreto se deu ainda no período universitário. Um estágio de férias na obra de ampliação do porto de Vitória, Espírito Santo, no mês de julho de 1953, possibilitou o primeiro contato com os elementos estruturais que, aos 73 anos, ainda estuda e ajuda a desenvolver. “Acabei me entusiasmando pela combinação entre concreto protendido e pré‐moldado”, conta lembrando do uso, então incomum, de vigas e longarinas pré‐moldadas e protendidas por pós‐tração.
Após um período inicial de trabalho na capital mineira, a trajetória profissional de Zamarion ‐sobrenome pelo qual é conhecido no rol da engenharia nacional ‐ se iniciou, de fato, em 1968, quando foi contratado pela SCAC (Sociedade de Concreto Armado Centrifugado). Nessa empresa desenvolveu a tecnologia de estacas emendáveis de grande capacidade.
A oportunidade de estudar e trabalhar com pré‐moldados de grande porte veio dois anos depois, na Cinasa (Construção Industrializada Nacional S/A), em companhia do engenheiro Augusto Carlos de Vasconcelos. “Eu o respeito muito, é o meu guru”, conta Zamarion ao referir‐se a Vasconcelos.
Os grandes vãos representavam, ainda mais que hoje, um dos maiores desafios para os projetistas de estruturas na década de 70. Segundo conta, os cimentos produzidos na época alcançavam, no máximo, 24 MPa. A dificuldade, sentida por Zamarion e Vasconcelos, levou a dupla a desenvolver pioneiramente no Brasil o concreto leve. O segredo estava no agregado, composto por argila expandida, e que já existia em outros países.
Mineiro, Zamarion enfrentou nos idos de 1960 o primeiro momento culminante da carreira ao deixar a terra natal e migrar para a capital paulista em busca de oportunidades, mas também de diversidade ideológica. Ou seja, para escapar do “conservadorismo típico do mineiro”.
O exemplo citado é o da construção de galpões industriais, hoje comumente feitos a partir de soluções pré‐moldadas. Segundo lembra, um dos grandes trabalhos era convencer os proprietários dessas obras da viabilidade técnica e financeira de usar os industrializados de concreto. O uso que atualmente se faz desses elementos foi impulsionado pela acentuada industrialização nacional nos anos 50 e, posteriormente, na década de 70.
Exemplificando o efeito montanha‐russa que assola a política e economia brasileiras, ao fim da década de 70, Zamarion viu minguarem os projetos. A alternativa à derrocada foi encontrada na expansão da atuação com o nascimento da Zamarion Consultores, já em 1981.
O engenheiro passou a elaborar projetos de estruturas convencionais e a fornecer consultoria na área de
tecnologia e de pré‐moldados. “Seja orientando a produção ou auditando projetos, praticamente todas as grandes empresas de pré‐moldados tiveram, em algum momento, alguma intervenção de nossa parte”, assegura.
Há 24 anos Zamarion associou‐se ao engenheiro Eduardo Millen e a empresa passou a se chamar Zamarion, Ayres & Millen, tendo o professor Lineu Azuaga Ayres da Silva se retirado da sociedade para dedicar‐se ao Departamento de Minas da Poli‐USP. Muitos outros colaboradores trabalharam na equipe de Zamarion, que faz questão de agradecer e reconhecer as diversas contribuições de jovens engenheiros que alçaram vôo a partir de sua empresa. A atuação do escritório une os projetos de estruturas em geral à área de tecnologia do concreto e permite ao engenheiro criticar a “especialização excessiva”. Tal efeito limita, argumenta, a capacidade de criação e de desenvolvimento dos profissionais.
O conhecimento multidisciplinar lhe garantiu, em 1988, o prêmio Emilio Baumgart, concedido pelo Ibracon em reconhecimento a sua contribuição no desenvolvimento de estruturas pré‐moldadas de
concreto.
Em 1993, Zamarion foi eleito para a presidência do Ibracon (Instituto Brasileiro do Concreto), sendo reeleito para o período de 1995 a 1997. Dedicou‐se à expansão das atividades dessa entidade, tida na época como bairrista e muito voltada à tecnologia do concreto. Considera essa impressão geral distorcida, uma vez que o quadro de fundadores, do qual faz parte, é composto por engenheiros estruturais e tecnólogos. Durante seus mandatos foi incentivada a realização dos Congressos Nacionais do Ibracon. “Sinto que o plano de desenvolvimento traçado naquela época teve continuidade”, afirma.
As atividades atuais do conselheiro vitalício e sócio honorário do Instituto voltam‐se à internacionalização da NBR 6118/2003, norma brasileira de projeto de estruturas de concreto. A intenção é juntá‐la às normas européias, norte‐americanas e japonesas e torná‐la aceita internacionalmente. “Esperamos que os investidores tenham a confiança de contratar um escritório brasileiro.”

Dez questões para Zamarion
· Por que escolheu ser engenheiro:
Sempre gostei de concretizar idéias abstratas. Por isso insisto que me tratem como engenheiro e não como professor, mas nem sempre tenho êxito.

· Obras marcantes que realizou:
Instalação industrial da Tusa (Transformadores União Siemens), em Jundiaí (SP); pisos, cobertura e fachadas pré‐fabricados do Aeroporto Internacional de Guarulhos, em São Paulo; pisos e fachadas préfabricados
do shopping Midway Mall, em Natal.

· Experiência mais significativa:
Nos anos 70, a experiência com problemas de maior deformabilidade das estruturas pré‐moldadas articuladas em relação às monolíticas moldadas no local, que levou ao desenvolvimento das ligações rígidas por solidarização no local, emulando o comportamento monolítico.

· Obra mais significativa da engenharia brasileira:
Usina Hidrelétrica de Itaipu.

· Principal avanço tecnológico recente:
Os concretos de alta resistência, de alto desempenho e os meios para obtê‐los.

· Melhor escola de engenharia civil:
Escola de Engenharia de São Carlos da USP (Universidade de São Paulo), pela boa e sólida formação teórica aliada à experimentação e à pesquisa, resultando em uma formação equilibrada do profissional.

· Mestres:
Augusto Carlos de Vasconcelos, pelo saber técnico e sabedoria como ser humano, e Epaminondas Mello do Amaral Filho, pelo conhecimento enciclopédico da engenharia, persistência e determinação.

· Um livro:
Se o assunto for concreto, o livro lançado pelo Ibracon no 47o Congresso Brasileiro do Concreto, realizado em Olinda (PE), neste mês.

· Um mal da engenharia civil:
Apesar dos grandes progressos, a pouca importância dada, em geral, à garantia da qualidade de projetos e da execução, o que resulta em desempenho insatisfatório.

· Um conselho ao jovem engenheiro:
Complemente a formação recebida na universidade mantendo‐se atualizado e aberto a novas técnicas e procedimentos.

Reportagem de Bruno Loturco
Téchne 102 ‐ setembro de 2005

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