Algumas palavras – Eng. Maurício Gertsenchtein

Prezados Colegas,

No dia 23/4/2013 a humanidade perdeu um grande homem. Faleceu o colega Maurício Gertsenchtein um dia após ter completado 77 anos. O Maurício foi um dos fundadores da Maubertec Engenharia de Projetos ainda na década de 60. Brilhante profissional da engenharia estrutural, professor universitário, empresário de sucesso, o Maurício não tinha apego a títulos ou quaisquer outros elogios. Também recusava qualquer homenagem.

Por isso trato-o, simplesmente, por Maurício. Fui aluno do Maurício quando cursava o quarto ano do curso de engenharia civil na EPUSP (modalidade hidráulica). Neste mesmo ano, por razões ainda desconhecidas, e agora ainda mais inexplicáveis, fui convidado por ele para fazer estágio na empresa Maubertec.

Meu primeiro trabalho foi o de calcular os valores dos famosos coeficientes K2, K3 e K6 para a montagem de tabelas para dimensionamento de armaduras em seções de concreto armado submetidas a flexão simples. Com base nestes valores o Maurício publicou, na década de 70, um livro com tabelas dos K, alcançando grande sucesso, em conjunto com o Prof. Dr. John Ulic Burke Jr.

Com pouco tempo de formado, ainda na década de 60, o Maurício foi um dos projetistas do edifício Mirante do Vale, já citado nesta Comunidade como, ainda, o mais elevado de SP. Mas não gostaria aqui de escrever sobre as qualidades técnicas como engenheiro estrutural, qualidades inquestionáveis do Maurício. Além das inegáveis qualidades técnicas, raciocínio lógico e capacidade de discernimento, o prof. Maurício se destacava ainda mais por ser uma pessoa humana diferenciada, priorizando sempre outras qualidades individuais mais significativas do ser humano, como solidariedade, humildade, caridade e desprendimento de bens materiais. O Maurício sempre tinha tempo para todos, especialmente aquelas pessoas mais necessitadas e humildes. Além das atividades profissionais como engenheiro estrutural, ele exercia inúmeras outras atividades visando o bem-estar e o auxílio material, físico e espiritual dos mais necessitados, sem nenhuma distinção sobre religião, credo ou classe econômica. Espírita fervoroso, o Maurício dava plantão no CVV, fazia visitas a detentos, realizava atendimento espiritual permanente a quem o procurasse, etc.

Estas eram atividades corriqueiras do Maurício na década de 70, algumas poucas atividades que eu tinha conhecimento. Embora seguidor da religião espírita, de todas as pessoas que conheci na minha vida, Maurício foi o que mais exerceu aquele significativo ensinamento de Cristo: “amai ao próximo como a ti mesmo”. Em muitas conversas pessoais que tive com ele, pude compartilhar um pouco da sua angústia sobre o exíguo tempo das 24 horas de um dia. Ele não dispunha de tanto tempo para se dedicar aos assuntos profissionais, à família e a todos os que o procuravam. Mas, pelo tanto que ele fazia por todos, parecia que o dia dele tinha mais que 30 horas. Eu tenho que agradecer a Deus por ter tido a oportunidade de poder ter trabalhado direta ou indiretamente com o Maurício por quase uma década. Sempre comentei que a forma de atuação e o modo de vida do Maurício foi e é um exemplo a ser seguido por todos. Para mim foi uma lição extraordinária sobre como deve ser o comportamento humano aqui na terra. Que o passamento do Maurício reavive em nós este espírito de solidariedade, compreensão e colaboração entre os seres humanos. Sempre que tenho a oportunidade, eu digo a todos que tive o prazer de conviver com o homem que considero o que mais acumulou riquezas deste mundo. Não riqueza material, física, aquela riqueza temporal que se acaba com o tempo, mas uma riqueza que a pessoa acumula de fato, impossível de ser subtraída, riqueza eterna e que se leva para sempre.

Esta riqueza que é constituída pelos infinitos favores que milhares de seres humanos devem ao Maurício, e eu me incluo como um destas pessoas que ficaram em débito. Hoje, participando do seu sepultamento, pude constatar inúmeros colegas, antigos conhecidos, presentes ao enterro. A maioria eram pessoas de sucesso profissional, pessoas com elevada formação acadêmica e importantes na nossa sociedade. Mas fiquei imaginando aquelas centenas, com certeza milhares, de pessoas humildes, simples, sem grande formação, que gostariam imensamente de estar ali, acompanhando a partida do Maurício, pois, para eles, o Maurício foi uma pessoa marcante e significativa nas suas vidas. Ele foi sepultado quase que no anonimato para os seus verdadeiros discípulos. Eles não puderam ser avisados a tempo para o sepultamento. Ele se foi para eles como sempre quis viver, anônimo, sempre fazendo o bem sem aparecer ou ser recompensado.

O eng. Maurício sempre foi um homem bom, praticou o bem e procurou auxiliar a todos os que o cercavam e fazer o bem sempre, sem recompensas. Até nas injustiças sofridas neste mundo ele se igualou aos grandes líderes espirituais. Além das inúmeras qualidades inerentes à sua personalidade, ele tinha outra extraordinária qualidade: a humildade, quesito que ele sempre levou ao extremo. Que nesse momento, em especial para as pessoas que tiveram a oportunidade de conviver com ele, mantenham este espírito que ele sempre deu como exemplo de vida. Conclamo os seus amigos mais próximos a unir esforços para a edição de uma biografia do Maurício com sua vida e obra aqui na terra. Seus ensinamentos e seu exemplo não podem ficar restritos apenas a poucas pessoas privilegiadas que conviveram com ele. Eu sinto também que fiquei mais órfão nesta data. Não foram apenas a cidade de São Paulo e o Brasil que perderam um grande homem, a humanidade perdeu um pouco do seu brilho. O Maurício se foi, este sim, verdadeiramente, plantou mais do que colheu neste mundo.

Certamente o Céu está em festa.
Sds
Nelson Covas